quarta-feira, janeiro 15, 2014

Ortografia em tempos modernos

Desde que caixa alta virou sinônimo de gritar, demonstração de raiva ou qualquer coisa nesse sentido passei a me sentir arcaico. Nunca entendi como se pode deixar de lado uma vírgula ou um ponto final. De algum jeito não conseguia me encaixar nesse mundo moderno onde a nossa ortografia foi abandonada sem um pingo – o mesmo que costumava vir em cima do i – de respeito.

De repente os porquês passaram a não ter diferenciação. Com acento ou sem, separado ou junto? Tanto faz como tanto fez. Ponto vírgul
a só para compor um emoticon. O mais virou mas e o mas passou a ser mais. Com certeza agora é junto. Só falta me falar que embaixo tem que ser separado.


Mesmo com essa miscelânea não consegui ficar abobalhado ao receber a mensagem do meu chefe: “vou te dar um conselho: não use ponto de exclamação porque parece que está brigando com os outros”. Vendo o sermão via sms – ô mundo moderno! – não entedia do escracho, pois por um breve texto disse: “já estou indo chefe!”. Diante do esculacho o que me consola é o ponto de interrogação. Porque este nunca perderá a sua razão de ser. Ou não?

terça-feira, dezembro 24, 2013

lá se vai mais um...



Então é Natal... e o que você fez do seu ano?

Vamos fazer assim: eu falo daqui o que eu fiz do meu e você vai pensando daí o que fez do seu. É o momento da auto análise... é a hora de selecionar o que dá pra levar pra 2014 e o que preferimos deixar em 2013.

Durante esse ano eu fui uma boa menina. Fiz das tripas coração para provar meu valor profissional e fui bem sucedida. Me transformei numa jornalista mais segura, mais feliz, mais cansada e, por vezes, mais exausta. E, sobretudo, sou uma jornalista ainda mais certa de que escolhi o ofício que melhor conseguiria desenvolver. Portanto: satisfação profissional - OK. 

Em 2013, eu dediquei mais tempo para minha alma. Li mais, assisti mais noticiários, rezei mais, renovei minha fé, me desprendi de antigas mágoas e parei de me sentir na obrigação de ser boa sempre. Admiti minhas falhas e comecei a abrir mão da cabeça dura. Certas coisas levam tempo e um ano é sempre pouco para elas. Por isso, acho que meu 2013 foi um primeiro passo na minha evolução pessoal. Mas um belo e bem dado primeiro passo. Sendo assim: satisfação espiritual - OK.

Como o lema na vida das pessoas deve ser sempre "mente sã, corpo são", os reflexos de uma alma mais forte podem ser vistos na preocupação física. Sendo assim, cuidei mais dos cabelos e da pele. Fui à luta e transformei o exercício físico em uma rotina diária prazerosa. Tá aí mais um primeiro passo incrível e delicioso. Ou seja: auto estima alta - OK.

Como toda boa mulherzinha, minha vida amorosa esteve em destaque pra mim algumas vezes. E eu não posso reclamar da minha. Não estou fechando o ano apaixonada ou amando intensamente... mas também não terminei 2013 decepcionada ou desiludida. Foi tudo na medida. Teve de tudo um pouco, com doses perfeitamente suportáveis. Esse foi o ano em que conheci um dos caras mais incríveis, mas imediatamente após tive que aprender que certas coisas têm seu tempo certo... e o meu, com ele, não era agora. E por ele ter feito tanta diferença na minha vida: vida amorosa - OK.

Mas a coisa mais importante que me aconteceu nesse ano foram os anjos que Deus me mandou em forma de amigos. Os novos e os antigos. Aquelas pessoas que vieram chegando devagar e conquistando seu lugar na minha vida. Aquelas que chegaram como um meteoro, detonando tudo. E aquelas que que sempre estiveram ali dando colo, companhia e conforto. O meu 2013 foi extremamente especial porque descobri que o que agrega valor nessa vida é o que você transmite de bom para as pessoas que te querem bem. E, principalmente, o amor que elas mandam de volta.

Se, em meu 2014, Deus me permitir estreitar os laços de amor que venho construindo e possibilitar formar novos laços de bem querer, já terei ganhado tudo o que preciso!

Eu espero que você feche seu ano tendo muito o que agradecer e nada para lamentar, porque a tristeza faz parte a vida... é o que você descobre fazer apesar dela que faz a diferença!

Um Natal de luz e amor pra você. E um novo ano de boas surpresas!

terça-feira, dezembro 03, 2013

desculpe o transtorno


Das muitas conclusões a que minhas noites insones me ajudaram a chegar, uma eu tenho que compartilhar: as pessoas não deveriam me deixar sair na rua sem ostentar, brilhante e lindamente, uma bela placa no pescoço com os dizeres "desculpe o transtorno, mulher inteligente".

Num mundo de mulheres pré-fabricadas e enlatadas, personalidade virou artigo de luxo. E a gente se sente na obrigação de avisar quando saímos da fábrica com o grave defeito de ter pensamento próprio.

Mas acho que no meu caso, sou produto descartável da fábrica de mulheres do Século 21. Não passar nos testes de padronização é motivo de sobra para ser descartada imediatamente.

Eu sinto informar a quem curte beldades produzidas em série que encabeço o lote com maior número de defeitos graves:

- não passei na pesagem apresentando valores acima da média geral;
- tenho gosto exacerbado pela leitura de livros, o que implica em conhecimento profundo do português formal;
- assisto noticiários e leio jornais o que faz de mim um ser com nível intelectual disforme para o padrão de qualidade exigido;
- minhas peças de roupa não são coladas, transparentes, curtas ou decotadas, caracterizando uma disfunção social avançada;
- meus cabelos vieram lisos e castanhos impossibilitando o uso de químicas avançadas de descoloração;

Como se vê, minhas chances de recall são mínimas, portanto tenho pouca salvação nesse sentido.

Em compensação, tenho a possibilidade de me destacar nos bazares e brechós por onde passar por atrativos antes dispensáveis. Sendo uma produção mal-sucedida, vim com um adicional de fábrica raro: vontade própria. Assim, não me privo ao defender minhas ideias e linhas de raciocínio. Também não me permito abrir mão do meu prazer pessoal com o sexo oposto e não me saboto no que diz respeito "aproximação de seres de mesmo defeito".

Posto isso, aviso aos navegantes: esse barco tem comando e, definitivamente, não está navegando ao léu. E tem mais, temos uma vaga disponível para o cara que ousar integrar essa tripulação.


segunda-feira, outubro 14, 2013

vai viver, criatura!


A dica do dia é: abra a janela, sinta o sol e acorde pra vida. Não tá fazendo sol aí? E daí? Sinta o vento frio na cara e quase congele, mas acorda pra vida. Tô nem aí se você, assim como eu, acorda sem humor... mas acorda, certo? Então acorde pra vida com um péssimo humor. O negócio é acordar. Independente do seu humor!

Sabe o que é? A gente tem tão pouco tempo pra aproveitar tudo o que queremos, tudo o que podemos. Pouco tempo para traçar planos e menos ainda para colocá-los em prática.

Um dia você acorda e tem 18 anos. No outro dia tem 25. E logo está com 30, descobrindo que não está nem perto do que imaginou pra si. O tempo corre e a gente esquece de correr junto! Ou até corre, mas o pique vai diminuindo... o folego acabando... Você até pode não ter feito nada do que planejou, mas a questão é: está feliz com o que fez até aqui?

Se pensou pra responder é sinal de que não fez. O nosso problema é o apego às pequenas coisas rotineiras que não mudam nada na sua satisfação pessoal, mas que você continua fazendo simplesmente porque não sabe substituir por algo novo...

Sério que o novo ainda te assusta? Jura que as convenções ainda são importantes para você? Então você realmente precisa acordar pra vida. Arrisque-se! Faça pequenas loucuras pessoais e veja no que dá!

Saia sem blusa de frio, mesmo sabendo que o tempo vai virar de madrugada! Tome três doses de tequila numa noite de quinta, mesmo sabendo que tem levantar cedo na sexta. Finja que o telefone do escritório não está tocando e deixe que outra pessoa atenda. Mande uma mensagem de bom dia e diga que está saudades daquele cara que você está afim... 

É como diz o conhecimento popular: "o não você já tem... o que perde ao arriscar um sim?"

Por favor, viva! Sorria mais, se divirta mais, veja mais graça nas coisas... tenha planos, no plural. Planos "A", "B", "C"... um alfabeto inteiro. Se permita partir para o próximo quando um deles falhar. Porque vai! Que graça teria viver se tudo na sua vida desse certo?

Sofra quando se frustrar. Chore quando um amor acabar. Viva o luto do fim de relacionamento. Morra de saudades. Mas aprume o corpo logo em seguida e pé na estrada.

Já parou pra pensar quantas boas surpresas a vida não te trouxe quando você tocou o foda-se e afrouxou as rédeas? Amigos que você fez numa fila de banheiro e ainda estão no círculo de "bons"! Uma oportunidade de emprego num jantar de família. Um beijo inesquecível num carnaval qualquer. Um papo inteligente numa festa chata. Um SMS depois de achar que o cara não ia aparecer. Um cantor sertanejo que curte Pink Floyd e não acredita que você não gosta de rock psicodélico. Uma pessoa arrebatadora que deixou saudades.

Vai ser feliz, criatura! Porque gente que cumpriu as metas que se impôs, anda aos montes por aí. Mas histórias incríveis para contar aos netos a gente só tem quando a meta principal é aproveitar a vida e não apenas passar por ela!

segunda-feira, setembro 02, 2013

O protesto de Nyrete




As manifestações que tomaram conta das ruas de todo o país em meados deste ano contribui para a ampliação de debates e para destacar as mazelas de um país em crescimento que não consegue se livrar de antigos problemas. Se por um lado as vozes que protestavam nas ruas enchiam o espírito com a esperança de se ter um Brasil mais justo por outro lado escancarava uma nação de realidades contrastantes. E que ainda tem muito que progredir.

Parte dessa conclusão não surge a partir dos exemplos que os nossos políticos nos dão a cada dia para mantermos o descrédito em nossas instituições públicas. Mas sim a partir da realidade que podemos ver em muitos brasileiros que seguem à margem da sociedade e confinados em um mundo sem perspectivas e alheios a qualquer oportunidade de poderem dizer que ao menos podem acreditar em ter um futuro.

Em um dos epicentros das manifestações que dominaram o país – Belo Horizonte – e alheia aos gritos que eclodiam na praça Sete de Setembro, uma mulher em posse de um pouco de tinta trouxe às ruas um protesto silencioso, particular e que muitos não tiveram a oportunidade de acompanhar. As imagens que acompanham esse artigo não conseguem traduzir os intensos sentimentos daqueles que puderam compartilhar à cena.

As palavras pintadas em um compensado – que substituía as portas de vidro de um banco – continham uma força transmitida pela dor que as acompanhava. O texto, que se inicia com uma menção ao prenome da Presidente da República, Dilma, logo era terminado com um SOS. O pedido de socorro de Nyrete: que diante de tudo que se gritava desejava apenas o fim do crack, apontado como um dos piores males da sociedade moderna.

“Dilma! Acabem com o crac [sic]. SOS Nyrete”. Curta, direta e impactante. Foi necessário poucos minutos para deixar a sua mensagem e sair de cena. Mas sem dúvida que o silencioso protesto de Nyrete resultou, ao menos para mim, na principal reflexão sobre os alvos da manifestação.

O que Nyrete quis no dizer é a necessidade de respeito. Respeito a uma sociedade que não se constrói – e não se destrói – sozinha. Respeito ao ser humano, que no mais simples gesto grita por um pouco de dignidade. Dignidade essa ceifada pelos desejos mesquinhos e individualistas que movem o ser humano. Nyrete disse, mas quantos a escutaram? 

Crédito das fotos: Gustavo Linhares

Divagações #2



A brisa fria da noite entrava pela janela. Sentado em um canto Ele se perdia em seus pensamentos, que nas últimas semanas inundavam a sua cabeça. A mente agitada era a sua única companheira naqueles dias. Em sua frente o cinzeiro já se enchia de tocos de cigarro, mas entre um gole e outro de uísque era inevitável não se entregar aos prazeres de uma baforada. Era a forma que encontrou para pontuar os seus pensamentos tão conturbados.

A vida sempre sai do nosso controle – se é que em algum momento temos o domínio da cadeia de acontecimento que nos envolve – e nos escapa justamente quando menos esperamos ou quando estamos convictos de que estamos no caminho certo. Essa somente uma das ironias que no cercam. E o que há de se fazer a não ser estar em constante adaptação para que possamos seguir em frente.

Um gole e um trago. Essa era a dinâmica daquela noite. Foram meses intensos e era preciso dar uma parada, sentar em uma mesa, ouvir boa música e tomar um porre. Sozinho. Ele e os seus pensamentos. Depois do baque recebido nos últimos dias tudo o que precisa era dedicar um tempo pra ele. Colocar a cabeça em ordem para depois olhar pra frente.

Por mais que seguisse com os dias atribulados no final de tudo o seu pensamento sempre voltava a Ela. Sabia que não devia. Mas não tinha como escapar. Algumas coisas simplesmente são difíceis de deixar ir embora e por mais que tente não se pode abrir mão facilmente. Por isso o olhar estava sempre voltado à porta deixada aberta.

Nessas horas os pensamentos são difíceis. E tudo é bastante dolorido. Mas aos poucos a cabeça vai se ajeitando, o coração aprumando e o que é necessário para continuar o seu caminho começa a aparecer. O que acontecerá só o tempo dirá. Mas o certo é que me algum momento haverá paz. E é tudo o Ele mais deseja. Enquanto a calmaria não vem mais uma dose é bem vinda.

E a cada gole que dava o olhar se dirigia à porta ainda aberta. E esperava. Em algum momento ela tem que fechar. Mas somente depois que ouvisse o barulho dela batendo é que teria a certeza: Ele já não mais se importava. 

quinta-feira, agosto 22, 2013

Divagações #1

De alguma forma o sono escapava Dele. Nas últimas noites era frequente se revirar na cama em busca de algum sossego e ainda assim o sono sempre escapava. Por mais que as noites mal dormidas cobrassem um preço o cansaço do dia seguinte nunca era suficiente para uma noite plena de sono. Com o coração inquieto era improvável que voltasse a ter as mesmas madrugadas tranquilas.

Na maior parte das vezes a paz só encontrada sabendo que se tem alguém em que amparar e em que possa contar, mesmo que o preço para isso seja caro de mais. Na verdade, nessas situações não se discute valor – mesmo que o “objeto” neste caso não tenha uma medida financeira. Em certos momentos só queremos dar a algumas pessoas aquilo que temos de melhor e sem pedir nada em troca. Apenas que aceitem a companhia, o carinho e o desejo de estar junto.

Na vida só é possível encontrar paz na calmaria de quem se ama. Se há alguma tempestade isso vale para os dois. É difícil compreender o porquê a tranquilidade nos escapa quando sabemos que quem amamos não a possuí. Mesmo quando para sermos protegidos somos deixados de lado. Isso porque a luta de um, querendo ou não, se torna a luta de dois – e disso Ele sabia que não abriria mão.

Enquanto divagava próximo à sacada da varanda – de posse de um cigarro, companheiro na hora de pensamento – o tempo seguia noite à dentro. E ele seguia sem dormir com o pensamento colado Nela.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Um pouco sobre o tempo


Ali parado contemplando a noite cair e um horizonte cortado pela silhueta das montanhas é espantoso como é possível perceber o tempo. Em uma paisagem em que montes, com suas vegetações e árvores, mesmo diante do extrativismo mineral, mantém-se imponente e quase imutável. Enquanto isso na cabeça um turbilhão de pensamentos nos moldam a cada momento e nos transformam em uma nova pessoa.

Em poucos momentos deixamos de ser o que éramos para logo ser substituído por algo novo, mas ainda sim volúvel diante do dinamismo da vida. Vida essa que chega e enverga nos ombros como peso – que não pedimos para carrega-lo. Ainda assim, nos mantemos forte e o suportamos da melhor forma que podemos. É a dinâmica do tempo que carregaremos ao longo dos nossos dias.

Assim como o tempo nos chega como um fardo o clichê – que por ser tão óbvio só poderia ser uma invenção humana – nos acompanha: a responsabilidade que nos estapeia é justamente para que possamos cumprir um suposto papel social. Crescer, estudar, escolher uma carreira, consolidar a carreira, criar uma família e envelhecer. Não sou o primeiro a refletir, ainda que superficialmente, e nem o último sobre isso.

Nesse processo esquecem apenas de nos falar que para cada um desses momentos são necessárias várias e várias escolhas. Cada definição é um caminho novo que se abrirá, seja ele para o mal ou para o bem. É nesse momento que o tempo se torna pesado e curto. Quando envolve apenas a nossa existência as coisas tendem a ser mais fácil, o problema é que nunca estamos sozinhos, e as nossas escolhas afetam a quem está o nosso redor.

Seria bom se as coisas fossem mais fáceis, se a simplicidade fosse uma escolha e se as nossas vidas seguissem um curso seguro. Para alguns o fato disso não exigir consiste no milagre da existência. Para mim um fardo com o qual lidamos. A reflexão é curta termina com um brinde curto e direto: "sou tudo o que posso ser neste momento" – só lamento decepcionar o velho Buk e, ao invés de compartilhar um vinho, encerro essas linhas com um gole de café.